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…nem sempre o espeto é de pau

16 de outubro de 2009

PROFISSÕES PERSISTENTES – Registros afirmam terem sido os Hititas, povo que há aproximadamente quatro mil anos estendeu um império do Mediterrâneo até perto do Mar Negro, os primeiros a dominar a técnica de manusear e manufaturar o ferro – mais difícil, porém, mais rico em possibilidades que o bronze, metal até então utilizado em larga escala na confecção de armas, esculturas, objetos religiosos, artefatos de cozinha e outros.
1200 anos antes de Cristo, mesmo com permanência do bronze como metal nobre e quando da derrocada do império Hitita, acredita-se que todo o conhecimento tecnológico mantido protegido durante séculos atrás das muralhas de Karatepe, foi espalhado às culturas vitoriosas, chegando até outros povos e, seguindo os caminhos da própria História, até os gregos (Homero, na Ilíada, cita uma ‘esfera de ferro’) e os romanos, que desdenham da têmpera ruim dada pelos celtas às suas espadas, sugerindo que estes não conseguiam agitá-las mais que três vezes sem a necessidade de pisarem-nas para refazer o molde do aço de inferior qualidade.
A profissão de ferreiro é milenar, e sofre, assim como sofrem outras atividades profissionais, com a concorrência dos tempos, com os arbítrios da modernidade – aquela senhora que se acha mocinha e que dita as regras que logo adiante serão revistas por outra senhora ainda mais mocinha e inexperiente –, a tudo e a todos…
O ferreiro mais jovem que encontramos em Capão Bonito tem 58 anos e está na profissão desde os 13, é José Dirceu de Oliveira, quase homônimo do ex-homem forte do governo Lula; Dirceu, como é popularmente conhecido, destoa dos demais companheiros de profissão, pois, apesar do momento econômico e da realidade que empurra todos para o valo comum da desesperança – quase desespero –, afirma não encontrar dificuldades em dar andamento à profissão; diz ter se adaptado aos novos tempos e, para isso, mostra as cruzes construídas para o período de Finados que se aproxima, os cestos para pesca, os bicos de arado tão comuns a outros tempos, a betoneira que orgulhosamente fabricou a partir de um exemplar fornecido; porém, assim como todos os outros entrevistados, afirma que os mais jovens não mostram interesse na prática da arte de ser ferreiro.
O clã dos Galvão é um capítulo à parte na história dos ferreiros capão-bonitenses. Herculano de Barros Galvão tem 93 anos, um ano a mais que Benedito Galvão e o primo Narciso; todos os três militaram ou militam na arte da ferraria; e todos os três estão vivos e lúcidos, o que nos leva a concluir – apesar de não haver registro científico – que a profissão de ferreiro é sinônimo de longevidade. Dos Galvão, desses de vida galvanizada, pode-se encontrar ainda alguns dos mais jovens na mesma labuta; um deles está, ao longo dos seus 65, há 52 anos na profissão de malhar o ferro para torná-lo útil de outra forma. Quando chegamos para a entrevista fabricava uma churrasqueira construída a partir de peças de louça sanitária, mostrando que arte e sustentabilidade caminham juntas. O que movimenta esse Galvão nos dias de hoje não são os trabalhos corriqueiros de confeccionar bicos de arado, foices, martelos ou machados, apesar do fato de que, durante a entrevista, um cliente trazer duas foices para recuperação, stuação que resultou numa brincadeira tipicamente gameleira, sugerindo que as ferramentas foram propositalmente quebradas para a não realização do trabalho.
Outro ferreiro – e que aqui tão bem cabe a alcunha de fenômeno –, de sobrenome Hussar, que em pleno em bom português quer significar (s. m.) ‘cavaleiro húngaro’; ‘gentil-homem polaco’, ‘soldado da cavalaria ligeira na França e na Alemanha’, forja o aço com qualidade invejável pelos que conhecem uma boa ferramenta. João hungarês, como é conhecido, mostra orgulhoso as invenções que o colocam – e isso de maneira natural – em sintonia com os novos tempos e, ao mesmo tempo, mostrar que as boas ideias e as novidades podem ser tão antigas quanto a própria necessidade.
João Hussar é, por excelência, um inventor; diz ter em sua oficina, pelo menos, sete ajudantes; os quais, ao que parece, não se queixam da dureza do trabalho, da carga horária nem do holerite no fim do mês, pois são ferramentas desenvolvidas para o bom andamento da função.
Pode até existir os que discordem da sua forma de pensar, mas é impossível não acreditar na sua forma de entregar-se ao trabalho, o qual, segundo suas palavras, deixou muitas marcas ao longo dos anos, algumas bastante nocivas, como a perda de movimentos na mão direita, que o obriga a exercícios quase pirotécnicos para executar uma função até mesmo simples para qualquer outro, porém, ao acompanhar os estalidos provenientes das suas engenhocas, a cumplicidade do som que o acompanha desde o raiar dos dias, é mesmo muito difícil de pensar que a vida tenha outra melodia.

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