Posts Tagged ‘Capão Bonito’

Livro de crônicas em versão ‘.pdf’

13 de dezembro de 2009

SERVIÇO: Eis a versão digital do livro de crônicas capão-bonitenses (SP). Para fazer o download é só clicar na imagem da capa do livro (à direita) e aguardar até que o arquivo abra no Adobe Acrobat Reader (se o seu computador não possui o programa: clique aqui). Assim que o programa reconhecer o arquivo é só clicar no ícone representando um disquete (à esquerda da tela e escolher o local onde Salvar o arquivo no seu computador.

Anúncios

Pedalar para tentar ficar onde está

10 de dezembro de 2009

PROFISSÕES PERSISTENTESNem sempre se consegue ligar o nome à pessoa, quanto mais à profissão exercida por essa pessoa, mas, no caso do guapiarense Lauro Lima, como dissociá-lo da função?
Lauro, como alerta o sobrenome, é amolador de facas, alicates para tirar cutícula, tesouras e outros instrumentos que exijam fio de corte e rebolo, que é uma pedra redonda e própria para a atividade do afiar; outra definição para amolador, além da de dar fio a esses objetos cortantes citados, é a de importuno, aborrecedor e maçante, o que não cabe ao nosso entrevistado, que permanece sereno – quase obtuso – no ato da amolação.
Dos seus 48 anos de idade, vinte já são dedicados à profissão, a qual, conforme suas palavras “aprendeu exercitando a curiosidade”; hoje em dia, afirma, o mercado não é dos melhores, quase ninguém tem a necessidade de afiar nada, pois tudo pode ser adquirido nas lojas que vendem produtos Made in China ou ao preço de um real. Não se coloca em discussão a qualidade desse material vendido a ¾ de dólar, porém, a clientela tradicional desaparece, como se esmerilhada estivesse sendo a profissão.
Nômade, Lauro conta que fica aproximadamente uma semana em cada cidade da região, vagando por Capão Bonito, Itapeva, Buri, Guapiara, Ribeirão Grande, Ribeirão Branco e outras – apenas São Miguel Arcanjo, por estar situada ‘fora da rota’, não é privilegiada com a visita desse afiador viandante.
Inquirido sobre o que ainda se afia atualmente, disse que são os alicates das manicures que garantem o seu sustento.
CANETA HIDRATANTE: A publicitária, designer e empresária capão-bonitense Daniele Honorato, 27, que mora na capital paulista, onde mantém seus negócios, após estudos de mercado, pesquisas para desenvolvimento do produto e contato com a indústria de cosméticos, lançou recentemente a caneta hidratante para cutículas, pois, segundo a também blogueira Daniele, além de o mercado carecer desse tipo de produto, o ato de tirar a cutícula prejudica a unha e a deixa fragilizada.

Alheio às inovações tecnológicas e imune à síndrome do high-technismo, Lauro Lima se prepara para atender as cidades sob sua jurisdição profissional, levando consigo o cantar característico do rebolo de esmerilhar e de sua bicicleta sem pressa de partir nem hora para chegar…

Trânsito: uma breve e agridoce receita de caos

19 de novembro de 2009

ENGENHARIA DE TRÁFEGOO trânsito de veículos em Capão Bonito-SP é caótico, mas não no sentido que se aplica ao tráfego das grandes cidades e capitais, onde automóveis, retrovisores, coturnos, motocicletas, ônibus e caminhões disputam cada palmo das ruas e avenidas com ciclistas e pedestres, deixando para as ‘vias aéreas’ o transporte de empresários, artistas e executivos, causando um chique engarrafamento de helicópteros.

Longe dessa superpopulação de veículos, prédios, pessoas, aviões e heliportos, o caos capão-bonitense se dá mais pela falta de planejamento e engenharia e do despreparo ululante dos condutores e dos pedestres do que pelo excesso de automotores.

Afinal, numa cidade com aproximadamente 50 mil habitantes e com enraizado perfil rural, haja vista o costume de se parar no meio da rua para uma prosa ou, como foi lembrado no programa Pânico quando da inauguração a afiliada da Rádio Jovem Pan na cidade: secar feijão no asfalto, é bem mais comum o deparar-se com cavalos, cavaleiros e amazonas trotando tranquilamente pelas ruas, em particular as da periferia.

As estreitas e antigas ruas do centro são as que oferecem menor condição de acesso e fluxo, e onde se vê também o despreparo de motoristas, ciclistas e pedestres. Ultrapassagens perigosas, conversões sem a devida informação aos outros motoristas e pedestres, além de ciclistas subindo e descendo pela contramão e sem atender ao previsto nas regras de trânsito, que o colocam à direita do veículo. Associe-se a isso o planejamento deficiente da sinalização das ruas, a falta – ou inoperância – de um Conselho Municipal para discutir e traduzir melhor o trânsito do município e a sossegada tradição interiorana e pronto: eis uma receita de caos.

Dois Pontos (análise): Nem de longe devemos culpar o sossego interiorano pela bagunça do trânsito, mesmo porque essa forma salutar de viver seria, quando muito, apenas um fator agravante. O quadro é complicado devido a planos mirabolantes e pirotécnicos elaborados ao frescor do ar-condicionado das salas por algumas gestões ou a falta de qualquer plano, deixando para que o correr dos dias cuide de tropeçar no acaso e cause o assentamento das coisas. Dir-se-ia disso: mágica, o que bem cabe sob a lona circense.

Alunos e professores contra fechamento de escola

31 de outubro de 2009

EDUCAÇÃO – Jovens estudantes da cidade de Capão Bonito, estado de São Paulo, organizaram neste sábado uma manifestação para tentar evitar o fechamento da Escola Estadual Professora Avelina Contiéri de Almeida, que atende dicentes do ensino fundamental, ensino médio e do EJA (ensino para jovens e adultos).

Com slogans como “fechar escolas é abrir prisões” os manifestantes percorreram as ruas centrais da cidade, passando em frente ao paço municipal, à residência do prefeito Julio Fernando Galvão Dias (PR) e concluindo a manifestação pacífica na Praça Rui Barbosa, onde curiosos, transeuntes, estudantes e professores ouviram discursos e palavras de ordem.
Segundo o presidente do grêmio estudantil da unidade, Michel Felipe Machado, a intenção é a de que o poder público municipal formalize – ou viabilize – a doação do prédio para o governo estadual, o qual, assim, assumiria o efetivo controle daquela instituição de ensino. Já a educadora Alexandrina Citadini (foto) afirma que o prefeito Julio Fernando não teria interesse em manter a escola funcionando nas instalações atuais – Avenida Ademar de Barros -, pois pretende reinstalar naquelas dependências a Escola Municipal Faustino Cesarino Barreto, a qual atualmente encontra-se instalada na mesma avenida, mas em prédio alugado pelo governo municipal, sendo a contenção de gastos uma das razões alegadas pela prefeitura para o retorno da escola municipal para seu local de origem.
Alexandrina lembrou que a instituição funciona há 26 anos e que sempre contou com o apoio dos diversos prefeitos que passaram durante esse período, afirma, também, que o atual prefeito alega ser Paulo Renato Souza, secretário estadual da Educação, o responsável pelo fechamento da unidade de ensino.
Dois Pontos (análise): Esse balaio de gatos, onde as informações acontecem de forma desencontrada, atirando a comunidade, a classe estudantil e o professorado ora contra o município, ora contra o estado, serve realmente a quem senão àqueles que querer confundir, ludibriar, lançar fumaça sobre a realidade?
É imprescindível à democracia as manifestações organizadas de forma ordeira e pacífica, buscando sempre o bem-estar da comunidade, o importante, no entanto, é que os estudantes não sejam manipulados e utilizados como massa de manobra por políticos oportunistas, que muitas vezes tem como objetivo principal não o idealismo lúdico da juventude questionadora, mas apenas a vitrine proporcionada por esses eventos democráticos.

…nem sempre o espeto é de pau

16 de outubro de 2009

PROFISSÕES PERSISTENTES – Registros afirmam terem sido os Hititas, povo que há aproximadamente quatro mil anos estendeu um império do Mediterrâneo até perto do Mar Negro, os primeiros a dominar a técnica de manusear e manufaturar o ferro – mais difícil, porém, mais rico em possibilidades que o bronze, metal até então utilizado em larga escala na confecção de armas, esculturas, objetos religiosos, artefatos de cozinha e outros.
1200 anos antes de Cristo, mesmo com permanência do bronze como metal nobre e quando da derrocada do império Hitita, acredita-se que todo o conhecimento tecnológico mantido protegido durante séculos atrás das muralhas de Karatepe, foi espalhado às culturas vitoriosas, chegando até outros povos e, seguindo os caminhos da própria História, até os gregos (Homero, na Ilíada, cita uma ‘esfera de ferro’) e os romanos, que desdenham da têmpera ruim dada pelos celtas às suas espadas, sugerindo que estes não conseguiam agitá-las mais que três vezes sem a necessidade de pisarem-nas para refazer o molde do aço de inferior qualidade.
A profissão de ferreiro é milenar, e sofre, assim como sofrem outras atividades profissionais, com a concorrência dos tempos, com os arbítrios da modernidade – aquela senhora que se acha mocinha e que dita as regras que logo adiante serão revistas por outra senhora ainda mais mocinha e inexperiente –, a tudo e a todos…
O ferreiro mais jovem que encontramos em Capão Bonito tem 58 anos e está na profissão desde os 13, é José Dirceu de Oliveira, quase homônimo do ex-homem forte do governo Lula; Dirceu, como é popularmente conhecido, destoa dos demais companheiros de profissão, pois, apesar do momento econômico e da realidade que empurra todos para o valo comum da desesperança – quase desespero –, afirma não encontrar dificuldades em dar andamento à profissão; diz ter se adaptado aos novos tempos e, para isso, mostra as cruzes construídas para o período de Finados que se aproxima, os cestos para pesca, os bicos de arado tão comuns a outros tempos, a betoneira que orgulhosamente fabricou a partir de um exemplar fornecido; porém, assim como todos os outros entrevistados, afirma que os mais jovens não mostram interesse na prática da arte de ser ferreiro.
O clã dos Galvão é um capítulo à parte na história dos ferreiros capão-bonitenses. Herculano de Barros Galvão tem 93 anos, um ano a mais que Benedito Galvão e o primo Narciso; todos os três militaram ou militam na arte da ferraria; e todos os três estão vivos e lúcidos, o que nos leva a concluir – apesar de não haver registro científico – que a profissão de ferreiro é sinônimo de longevidade. Dos Galvão, desses de vida galvanizada, pode-se encontrar ainda alguns dos mais jovens na mesma labuta; um deles está, ao longo dos seus 65, há 52 anos na profissão de malhar o ferro para torná-lo útil de outra forma. Quando chegamos para a entrevista fabricava uma churrasqueira construída a partir de peças de louça sanitária, mostrando que arte e sustentabilidade caminham juntas. O que movimenta esse Galvão nos dias de hoje não são os trabalhos corriqueiros de confeccionar bicos de arado, foices, martelos ou machados, apesar do fato de que, durante a entrevista, um cliente trazer duas foices para recuperação, stuação que resultou numa brincadeira tipicamente gameleira, sugerindo que as ferramentas foram propositalmente quebradas para a não realização do trabalho.
Outro ferreiro – e que aqui tão bem cabe a alcunha de fenômeno –, de sobrenome Hussar, que em pleno em bom português quer significar (s. m.) ‘cavaleiro húngaro’; ‘gentil-homem polaco’, ‘soldado da cavalaria ligeira na França e na Alemanha’, forja o aço com qualidade invejável pelos que conhecem uma boa ferramenta. João hungarês, como é conhecido, mostra orgulhoso as invenções que o colocam – e isso de maneira natural – em sintonia com os novos tempos e, ao mesmo tempo, mostrar que as boas ideias e as novidades podem ser tão antigas quanto a própria necessidade.
João Hussar é, por excelência, um inventor; diz ter em sua oficina, pelo menos, sete ajudantes; os quais, ao que parece, não se queixam da dureza do trabalho, da carga horária nem do holerite no fim do mês, pois são ferramentas desenvolvidas para o bom andamento da função.
Pode até existir os que discordem da sua forma de pensar, mas é impossível não acreditar na sua forma de entregar-se ao trabalho, o qual, segundo suas palavras, deixou muitas marcas ao longo dos anos, algumas bastante nocivas, como a perda de movimentos na mão direita, que o obriga a exercícios quase pirotécnicos para executar uma função até mesmo simples para qualquer outro, porém, ao acompanhar os estalidos provenientes das suas engenhocas, a cumplicidade do som que o acompanha desde o raiar dos dias, é mesmo muito difícil de pensar que a vida tenha outra melodia.