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45 anos do sonho de um colibri de tamancos

9 de agosto de 2009

Desde que Pedro Vilarino Ferreira (1919 – 1986), o Cuitelo, criou o grupo de Fandango de Tamanco, em 1964, já se vão 45 anos de colibris, tangarás e laranjeiras. Presença constante no Festival do Folclore de Olímpia/SP, o grupo vem se renovando e tem tudo para atingir a marca de meio século de existência dentro em breve, uma vez que a nova geração, os neocaipiras, cuidam com zelo e disciplina de manter viva a chama acesa por aquele beijador de flores há mais de 40 anos.
Naqueles outros tempos não havia muitos fan-dangueiros, ou, os que existiam estavam espalhados pelos diversos bairros da zona rural do município de Capão Bonito, assim, segundo Diogo Silva, sempre quando das festas religiosas, casamentos, mutirões (puxirões) e outros eventos de caráter social e coletivo, havia a convocação para que este sanfoneiro do bairro de Ana Benta comparecesse, também aquele violeiro do bairro dos Gomes se fizesse presente, além deste fandangueiro do Ferreira dos Matos, aqueloutro do então distrito de Ribeirão Grande levasse a fé, os pés e a coragem para a labuta na tarefa ou apenas para o lazer da comunidade. Dessa forma, sendo para o trabalho numa puxada de enxada, numa furiada para levantar uma casa de pau a pique, para uma Folia de Reis ou para celebrar um casório na roça, lá iam os músicos e os artistas com seus tamancos feitos de laranjeira – sim, porque à exceção de laranjeira e canela, outras madeiras não possuem a resistência ideal e acabam por rachar ante as primeiras tamancadas. A celebração acontecia de acordo com o evento programado, ou seja, no caso dos mutirões, ao final da empreitada o dono da propriedade beneficiada servia refeição aos presentes, sempre regada às folganças dos queromanas, violas e pés-de-bode (sanfona de oito baixos).
A origem da variação brasileira dessa dança espanhola possui diversas – e até controversas – explicações, sendo, porém, das mais aceitáveis a que atribui aos tropeiros oriundos do Rio Grande do Sul e seguindo em direção à Feira de Muares em Sorocaba/SP o pouso e posterior enraizamento da dança. Algumas características sutis que a complementam fortalecem essa possibilidade gaúcha, pois, o próprio termo ‘queromana’, palavra caída em desuso nos dias de hoje e por isso dificilmente – ou sequer – encontrada nos dicionários mais recentes da língua, aparece nos exemplares anteriores à reforma ortográfica de 1970 com hífen e a definição que segue: “Quero-mana, s. m. (Bras. Sul) Antigo bailado campestre, espécie de fandango; canto popular que se executa ao violão.”.
O grupo de Fandango de Tamanco Cuitelo de Ribeirão Grande talvez seja o único exemplar em atividade dessa modalidade de dança tipicamente caipira e de cunho social. Diogo conta que noutros tempos existiam outras agremiações de fandangueiros em Capão Bonito, onde a participação de mulheres era algo bastante comum, ocorre, porém, que com o passar dos anos esses grupos foram perdendo seus integrantes devido à falta de interesse dos mais jovens, ocasionando o envelhecimento e consequente desaparecimento desses grupos mistos de fandango.
As coreografias, o repertório, o figurino e, de certa forma, a hierarquia dentro do grupo de fandango também constituem esse todo. Diogo, que diz ter se interessado por essa manifestação popular em 2006, por intermédio da comissão de Arte e Cultura do Projeto Geração – Capão Bonito/SP, conta que o figurino oficial do fandango do Cuitelo é composto, além dos tamancos, é claro, pelo chapéu de palha, a camisa xadrez azul e branca e o lenço no pescoço, o qual, segundo afirma, representa os beija-flores em sua grande variedade de tons e cores, daí o fato desses lenços serem amarelos, verdes, azuis, posto que tudo depende do gosto individual de cada fandangueiro. Quanto ao repertório, basicamente são queromanas criados de improviso e seguindo a tradição (“No repique da viola, bate a mão e bate o pé…”), quando os cantadores atiçavam uns aos outros com cantigas para chamar à dança e, quase sempre, à resposta cantada; quem basicamente gerencia essa evolução é o mandadô, que recicanta as ordens para o restante do grupo, o qual, devidamente ensaiado, atende aos diversos chamados, entre eles um “Todos sabem como é…” ou “Tô na viola, não vô mais…”, além de outros tantos utilizados para comandar algumas das coreografias tradicionais: luxinho no lugar, luxinho batido, volta inteira, tangará e cortesia. Uma das curiosidades sobre a coreografia do grupo fica por conta da Tangará, onde os fandangueiros imitam a maneira de como esses pássaros cantam e ‘dançam’ trocando de lugar; já com relação à Cortesia, a característica principal é que o sapateado é executado com os pés batendo para trás – trata-se de uma dança final, de agradecimento.
Há histórias de festas onde os fandangueiros varavam a noite dançando e chegavam mesmo a trocar de camisa tamanha a transpiração e o suor impregnados na roupa; ainda hoje, atesta Antonio Silva, pai de Diogo, sempre que o grupo se apresenta no bairro de Ferreira dos Matos, a nostalgia e a tradição fazem com que o evento tome exagerados ares de jogo da seleção brasileira de futebol ou coisa parecida, uma vez que os aplausos calorosos e as lágrimas incontidas dão a tônica ao acontecimento.
A Associação da Cultura Caipira ‘Cuitelo’, de Ribeirão Grande, assim como outras entidades do município e da região, está empenhada no conhecimento, no resgate, na divulgação e na manutenção desses valores da cultura caipira. De acordo com Diogo, esse trabalho inclui também eventos em conjunto com outras associações interessadas no tema.

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